Parece que a sabedoria popular nunca falha, filho de peixe peixinho é.
Mais um episódio da longa e complexa investigação do escândalo de corrupção envolvendo fraudes no INSS acaba de ser lançado. O protagonista desse novo capítulo é Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente mais honesto da história desse país. O pedido de prisão de Lulinha foi protocolado pelo advogado Jeffrey Chiquini junto ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Chiquini, embora represente Filipe Martins em outro processo no STF, fez questão de afirmar que seu requerimento não possui vínculo algum com a defesa do ex-assessor de Jair Bolsonaro. Em sua justificativa, classificou o pedido como técnico, um movimento baseado apenas em elementos concretos e não em motivações políticas. Segundo o advogado, o caso reúne indícios robustos de envolvimento direto de Lulinha em fraudes relacionadas ao INSS.
O documento entregue ao Supremo menciona informações que, de acordo com o autor da petição, conferem densidade institucional às suspeitas. Um ex-auxiliar do empresário conhecido como Careca do INSS teria declarado, em depoimento, que Lulinha recebeu R$ 25 milhões e ainda uma mesada de R$ 300 mil. O diretor-geral da Polícia Federal confirmou a existência de investigações em andamento, o que deu à história uma legitimidade processual e tirou o tema da esfera dos boatos.
Outro ponto levantado por Chiquini chama atenção: a ausência de Lulinha no país. O filho do presidente teria retornado à Espanha, onde reside, após breve passagem pelo Brasil durante as festas de fim de ano, sem se apresentar às autoridades ou oferecer esclarecimentos. Para o advogado, essa saída em meio a uma investigação criminal avançada indica risco concreto à aplicação da lei penal. Especialmente considerando a magnitude dos recursos financeiros envolvidos e o vínculo do investigado com o exterior, o que facilitaria eventual evasão. O pedido, portanto, não é apenas pela prisão, mas também para que o Ministério Público Federal se manifeste sobre o caso e, se entender adequado, ratifique a medida. A argumentação repousa sobre o entendimento de que a prisão preventiva pode ser decretada quando há elementos que apontem para o risco de fuga.
Mas essa não é uma história isolada, tampouco recente. Ela é o prolongamento de um enredo que mistura o sobrenome mais poderoso da política nacional, uma ascensão empresarial meteórica e uma coleção de fatos em que coincidência e conveniência caminham juntos.
Fábio Luís Lula da Silva nasceu em São Bernardo do Campo, berço do sindicalismo moderno e do próprio lulismo, em 1975. Filho de um operário que se tornaria o homem mais influente da política brasileira, cresceu sob a sombra de um mito em construção. Sua juventude foi simples: enquanto o pai tocava a carreira política, ele trabalhava como monitor de zoológico e dava aulas de informática. Nada indicava que aquele rapaz de salário modesto, ganhando cerca de 600 reais por mês, se tornaria um milionário em poucos anos, exceto, talvez, o fato de ser o filho de Lula.
A virada veio logo depois da posse presidencial de seu pai, em 2003. O antigo monitor de zoológico tornou-se sócio dos irmãos Fernando e Kalil Bittar, filhos de um velho amigo de Lula, Jacó Bittar. Nessa sociedade nasceu a Gamecorp, uma empresa de tecnologia e comunicação que em pouco tempo receberia uma injeção financeira de peso: R$ 15 milhões vindos da Telemar, uma concessionária pública que contava com participação do BNDES e de fundos de pensão estatais. A partir daí, o modesto projeto virou um negócio promissor, alugando seis horas diárias da grade do Canal 21, que logo mudaria de nome para PlayTV. O capital público se misturava ao privado, a política ao mercado e, inevitavelmente, o sobrenome Lula ao lucro.
Investigações posteriores revelaram que Lulinha e Kalil mantinham relações diretas com lobistas de Brasília, como Alexandre Paes dos Santos, o APS, um nome conhecido nos bastidores do poder por seu envolvimento em esquemas escusos. Segundo apurações jornalísticas da época, APS teria disponibilizado estrutura, carros e até uma sala exclusiva para Lulinha e Kalil em sua mansão. Ali, os jovens empresários despachavam lado a lado com figuras do submundo político, enquanto desfrutavam de hospedagens em residências oficiais como a Granja do Torto e o Palácio da Alvorada.
Em paralelo, a Gamecorp se viu envolvida em discussões sobre mudanças na lei de telecomunicações que poderiam favorecer diretamente a Telemar, sua principal investidora. Lulinha e Kalil chegaram a participar de reuniões com o então secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg, para discutir alterações legais que abririam caminho para fusões até então proibidas. Quando a notícia veio à tona, a operação foi abortada às pressas, mas o dano à imagem já estava feito.
Anos depois, a sombra das suspeitas retornou, agora em forma de inquérito judicial. O caso que nasceu na Operação Lava Jato em Curitiba acabou sendo transferido para São Paulo em 2020. Lulinha passou a ser investigado por supostamente ter recebido mais de 100 milhões de reais em repasses do grupo Oi/Telemar para suas empresas Gamecorp e Gol. Sérgio Moro, então juiz da 13ª Vara Federal, autorizou quebras de sigilo fiscal e telemático, além de buscas e apreensões. Entretanto, com o reconhecimento da suspeição de Moro pelo STF, as provas coletadas foram consideradas ilícitas e o inquérito, por consequência, arquivado pela Justiça Federal de São Paulo.
O Ministério Público Federal, diante da decisão do Supremo, reconheceu que sem as provas, que foram anuladas, não havia elementos suficientes para sustentar qualquer acusação. Assim, o caso foi encerrado, não por comprovação de inocência, mas por ausência de validade jurídica das evidências. É, parece que o filho puxou muito do pai. O episódio reforçou a sensação de que, no Brasil, as fronteiras entre justiça e poder são tão tênues quanto se possui os contatos certos.
Chegando à atualidade, a policial revelou que, durante anos, sindicatos e entidades conveniadas realizavam descontos mensais nos benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização dos próprios beneficiários. Pequenas quantias, retiradas silenciosamente de milhões de pagamentos, somavam cifras astronômicas. A estrutura do esquema incluía empresas de fachada, contratos falsos e sofisticadas estratégias de lavagem de dinheiro.
No centro de tudo, um nome: Antônio Carlos Camilo Antunes, que você com certeza deve conhecer como “O Careca do INSS, que diz não ser o Careca do INSS”. Ele atuava como operador do sistema, recebendo os recursos desviados e redistribuindo-os a servidores e dirigentes do instituto para manter o funcionamento da engrenagem. Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto, encontrou cadernos, planilhas e mensagens que detalhavam a partilha dos lucros. Foi nesse contexto que o nome de Lulinha voltou a aparecer, ainda que de forma indireta.
As menções surgiram em conversas interceptadas e documentos apreendidos, sugerindo que o filho do presidente poderia ter atuado como sócio oculto do Careca em determinados negócios. Contudo, até o momento, não há provas objetivas que sustentem essa hipótese. Lulinha não é alvo formal da investigação, não foi convocado pela CPI e não existe mandado de busca ou prisão em seu nome. As citações, portanto, pertencem ao terreno nebuloso das coincidências, onde insinuações e suspeitas convivem com a falta de evidências.
A defesa de Lulinha nega qualquer envolvimento e sustenta que as menções não passam de ilações políticas destinadas a desgastar o governo. Legalmente, ele permanece inocente, e é importante frisar isso, pois em um Estado de Direito a inocência é o ponto de partida, não a exceção. Mesmo assim, sua imagem se vê novamente atrelada à escândalos milionários, e com o tempo fica difícil afirmar que tudo isso foi só coincidência. Para muitos, o simples fato de o filho do presidente aparecer em relatórios da Polícia Federal já basta para acender um alerta.
O caso de Lulinha chamou ainda mais atenção quando se noticiou que ele havia deixado o Brasil rumo à Espanha, onde vive. Para alguns, uma tentativa de fuga, para outros, apenas um retorno à residência. Seja como for, a coincidência temporal entre a intensificação das investigações e a sua partida alimenta o imaginário coletivo. O próprio presidente Lula tentou dissipar a tensão dizendo que, se o filho cometeu algo de errado, terá de responder por isso. Ainda assim, a declaração soou mais como uma tentativa de blindagem política do que como distanciamento real. Afinal, a bancada governista no Congresso votou em peso contra a convocação de Lulinha para depor na CPI do INSS, o tipo de coincidência que, de tão frequente, já nem espanta.
Entre suspeitas, o caso se mantém suspenso em uma espécie de limbo jurídico e moral. Lulinha não está condenado, mas tampouco está livre do peso da desconfiança. É o retrato de um Brasil em que o sobrenome continua sendo tanto uma bênção quanto uma maldição.
Mesmo que o filho do presidente venha a ser considerado inocente de todas as acusações, sua trajetória serve como estudo de caso perfeito sobre um fenômeno antigo e persistente: o nepotismo e o privilégio político. Desde o início de sua ascensão, a história de Lulinha sempre pareceu menos sobre talento empresarial e mais sobre o poder gravitacional de um sobrenome.
Quando o próprio Lula o exaltou publicamente desde o seu primeiro mandato, chamando-o de seu “Ronaldinho”, era o início da narrativa do filho prodígio, que por si só, expôs Lulinha nacionalmente o ajudando a conseguir contatos no mundo empresarial.
O Brasil é pródigo em gerar dinastias políticas que, disfarçadas de coincidência, perpetuam privilégios. O filho de um presidente enriquece durante o mandato do pai, frequenta palácios, negocia com estatais e, quando surgem questionamentos, o sistema jurídico age com lentidão.
Essa mera assimetria já deveria ser um verdadeiro escândalo nacional. Não o dinheiro em si, nem o contrato, nem o depoimento duvidoso, mas o fato de que ser filho de alguém ainda confere imunidade disfarçada de justiça, como era com os fidalgos do Brasil colonial. O desfecho dessa história talvez diga menos sobre ele e mais sobre nós, sobre o quanto ainda toleramos que o sobrenome valha mais do que o mérito, e que a Justiça curve a cabeça diante do poder.
https://revistaoeste.com/politica/chiquini-pede-que-mendonca-decrete-prisao-de-lulinha-por-fraudes-no-inss/
https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/na-mira-da-policia-federal-lulinha-deixa-o-brasil-e-retorna-a-europa
https://www.direitonews.com.br/2026/01/advogado-filipe-martins-pede-andre-mendonca-decrete-prisao-preventiva-lulinha-fraudes-inss.html?m=1
https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/veja-1-8211-o-estalo-de-lulinha-de-monitor-de-zoologico-a-milionario-o-filho-de-lula-os-amigos-o-lobby-e-as-relacoes-com-o-encrencado-aps/
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/01/17/justica-federal-de-sp-arquiva-investigacao-sobre-filho-de-lula-na-operacao-lava-jato.ghtml
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lulinha_(empres%C3%A1rio)