No Brasil, o chocolate já é um artigo de luxo. Se você não se contenta com aquelas moedinhas e aqueles guarda-chuvas de puro sebo, que fingem ser chocolate, ou com seus equivalentes atuais - as barras “sabor chocolate”, - então você tem que pagar caro. Muito caro. Contudo, contínuas quedas no preço dos principais insumos usados na fabricação do chocolate deveriam garantir, ao brasileiro, algum resquício de esperança para uma Páscoa mais recheada, com chocolate mais barato. Infelizmente, o governo Lula, como sempre, não vai permitir ao brasileiro tamanha felicidade.
Nos últimos meses, o preço do cacau tem caído, de forma constante, ao redor do mundo. E tudo indica que isso vai continuar acontecendo em 2026. Ao longo do ano passado, o preço dessa commodity caiu quase 50% em relação ao ano anterior, em nível global. E, apenas na primeira quinzena de janeiro deste ano, houve um recuo nos preços do cacau na ordem de 10%. A expectativa, inclusive, é de que os preços continuem caindo nos próximos meses, revertendo uma tendência de alta que ocupou vários dos últimos anos.
Mas o que tem causado essa queda expressiva nos preços do cacau? A resposta para isso é bastante simples, e diretamente relacionada à mais básica das leis econômicas: excesso de oferta. Condições climáticas favoráveis levaram a Costa do Marfim, maior produtor de cacau do mundo, a registrar safras recordes - muito superiores à demanda mundial. Como o cacau vinha de muitos anos de preços elevados, a demanda já havia naturalmente decaído. Agora, o evidente descompasso entre oferta e demanda fez com que os preços desabassem consideravelmente.
E essa queda nos preços tende a se acentuar, uma vez que a Costa do Marfim pode fechar a atual safra com nada menos que 200 mil toneladas de cacau não vendidas. Em outras palavras: basicamente, está sobrando cacau no mundo. E como nos ensinam as mais básicas leis da economia, quando a oferta supera a demanda, os preços caem. Se a oferta for muito maior, os preços simplesmente desabam - e é exatamente isso o que tem acontecido.
Mas a coisa não se restringe apenas ao cacau: outro produto que está com preço em queda constante é o açúcar. Em 2025, a commodity acumulou uma queda de 17%, na comparação com o ano anterior. Nesse caso, o problema também é o excesso de oferta. Safras recordes foram observadas em todos os grandes produtores mundiais - Índia, México, Estados Unidos, Tailândia e, é claro, o Brasil. No caso do açúcar, espera-se que os preços continuem em queda até o fim de 2027 - tudo isso também por causa da oferta excedente.
Só que ainda tem mais: o preço do leite de vaca também vem sofrendo constantes quedas, ao longo dos últimos meses. Se compararmos, por exemplo, os preços de outubro do ano passado com o mesmo período de 2024, veremos uma queda de cerca de 20%. E, tal como aconteceu com o cacau e com o açúcar, o preço mundial do leite de vaca está caindo devido a uma oferta abundante desse item.
Veja, por exemplo, que os Estados Unidos acumulam, atualmente, o seu maior rebanho leiteiro em muitas décadas, e a eficiência - ou seja, a quantidade de leite produzido por vaca - nunca foi tão grande por lá. Com a superabundância dessa commodity no mercado global, o inevitável aconteceu: o preço desabou - e vai continuar assim até pelo menos o segundo semestre deste ano, quando o abate de vacas leiteiras deverá começar a equilibrar a oferta.
Bem, com a queda conjunta nos preços do cacau, do açúcar e do leite - os principais insumos utilizados na fabricação do chocolate, - era de se esperar que, finalmente, o tão amado doce ficasse bem mais acessível para o brasileiro na Páscoa deste ano, certo? Certo? Bem, na verdade, não. Afinal de contas, isso aqui é Brasil; e, por aqui, tudo de mais absurdo pode acontecer.
Embora os preços dos insumos citados tenham caído consistentemente no decorrer de 2025, o preço do chocolate vendido aqui no Brasil subiu quase 25% no mesmo período - uma alta que é, inclusive, muito superior aos índices oficiais tupiniquins de inflação. E isso porque estamos falando daquele maravilhoso chocolate brasileiro - muito mais semelhante a um sebo do que a um chocolate com um mínimo aceitável de qualidade.
E para além da piora da já baixa qualidade do produto, as embalagens também encolheram, para que os preços pelo menos fossem mantidos - é a chamada “reduflação”. Agora, já vemos serem vendidas barras de chocolate com apenas 65g - as mesmas barras que, no passado, pesavam 200g. Já os ovos de páscoa de 2025 encolheram até 15%; e esse mesmo fenômeno se observou também nas caixas de bombom, cada vez mais cheias de ar, e mais vazias de chocolate.
Segundo analistas, essa tendência vai ser manter para a Páscoa de 2026. Em outras palavras, o coelhinho da Páscoa do brasileiro vai ficar ainda mais magro. Nós comeremos chocolate de pior qualidade, e cada vez em menor quantidade - e pagaremos mais caro por isso. Fala sério: não é mesmo uma maravilha ser brasileiro?
É claro que, a essa altura do campeonato, alguém pode afirmar que a redução no preço de uma commodity não leva a uma redução imediata do preço do produto final, porque a cadeia produtiva é muito complexa, e muitas indústrias trabalham com contratos de compra de longo prazo. E sim, tudo isso é verdade. Pode ser que, no Brasil, estejamos apenas vivendo uma defasagem entre a queda de preços iniciada em 2025, e o aparecimento das consequências dessa queda nas prateleiras dos supermercados. Mas precisamos ser honestos, como de costume: a verdade é muito mais agridoce. E, como sempre, o governo brasileiro tem sua enorme parcela de culpa nessa história.
No dia 24 de fevereiro, o Ministério da Agricultura e Pecuária do desgoverno Lula publicou um despacho suspendendo a importação de cacau oriundo da Costa do Marfim. É exatamente isso que você ouviu: sabe aquelas 200 mil toneladas de cacau encalhadas no país africano, vendidas não a preço de cacau, mas sim a preço de banana? Pois é, o governo Lula proibiu sua importação. Que maravilha, não é mesmo? Que timing perfeito!
A desculpa oficial está relacionada a questões sanitárias e controle de pragas. A verdade, contudo, nós bem conhecemos. Antes do tal despacho ser publicado, o citado ministério se reuniu com produtores brasileiros de cacau, que reclamaram do “problema” da concorrência exterior, e de como os preços estavam constantemente em queda. Magicamente, logo na sequência, o governo Lula decidiu suspender as importações vindas do maior produtor mundial da commodity. Que conveniente, não é mesmo?
Só isso já seria o suficiente para garantir que os preços do chocolate no Brasil nunca caiam. Mas, por aqui, tudo sempre pode piorar - e sempre piora. Também por pressão dos produtores brasileiros, já se planeja o aumento dos impostos de importação para o cacau que vem de fontes como a própria Costa do Marfim, e também de outros lugares como Equador e Gana, dos atuais 9% para absurdos 20%! Obviamente, quem vai pagar esse imposto não é o importador, mas sim o consumidor final. Mas quem liga para isso no governo Lula, não é mesmo?
Além disso, vigora no Brasil o chamado regime de drawback do cacau, que permite que os importadores brasileiros adquiram cacau do exterior com isenção de impostos, desde que esse cacau seja utilizado exclusivamente para produzir itens que serão exportados - ou seja, não é para abastecimento interno. Esse mecanismo é, na verdade, um criador de incentivos perversos, uma vez que há um claro favorecimento não ao fornecimento de chocolate e outros derivados acabados do cacau ao povo brasileiro, mas sim à sua exportação.
Na prática, o produtor brasileiro de chocolate e de outros derivados vê muito mais vantagem em fabricar para exportar, usufruindo de uma bela isenção tributária na aquisição da matéria-prima, do que em produzir para o consumidor brasileiro, tendo que arcar com custos muito mais elevados. Por isso, além de o cacau destinado à produção para consumo interno ter um preço artificialmente elevado pelo governo Lula, a oferta do próprio chocolate para o mercado brasileiro acaba sendo prejudicada. E oferta menor significa - exatamente - preços mais elevados.
Esse caso nos dá um excelente resumo da típica ação do estado - que tira de todos, para dar para uns poucos privilegiados. Nesse caso, grupos de interesse bem posicionados - os produtores de cacau - recebem benesses estatais às custas de todos nós, os consumidores. Para que os produtores possam cobrar caro em seus produtos e manter suas gordas margens de lucro, o povo brasileiro será obrigado, pelo estado que o governa, a pagar mais caro por um chocolate de pior qualidade.
As leis econômicas, sempre implacáveis, deveriam garantir a queda dos preços do chocolate para o brasileiro. Veja, por exemplo, o caso norte-americano. Embora o preço do chocolate nos Estados Unidos ainda estivesse bem salgado na época do dia dos namorados de lá, espera-se que eles já estejam mais baixos por ocasião da Páscoa, e ainda mais baixos lá na frente, na época do Halloween. Contudo, no Brasil, como o estado tipicamente tende a se posicionar contra as imutáveis leis do mercado, podemos esperar chocolates cada vez mais caros daqui em diante.
O resultado de toda essa intervenção estatal em favor de uns poucos é uma verdadeira distorção econômica, capaz de deixar qualquer economista da Escola Austríaca de cabelo em pé. Graças ao governo Lula, o brasileiro vai ter uma Páscoa muito mais cara, e muito menos doce. Pelo menos, o produtor de cacau, com ótimos contatos políticos, vai se dar bem nessa história. Obviamente, isso não vai melhorar nem a produção de cacau brasileira, nem o chocolate que nós comemos, porque quando o estado age, é apenas para piorar a economia - e, é claro, as nossas vidas.
https://mercadodocacau.com.br/costa-do-marfim-pode-encerrar-safra-com-200-mil-toneladas-de-cacau-nao-vendidas/
https://www.cnnbrasil.com.br/agro/excesso-de-oferta-global-deve-pressionar-os-precos-do-acucar-ate-2027/
https://revistaoeste.com/agronegocio/governo-suspende-importacao-de-cacau-da-costa-do-marfim/
https://www.aa.com.tr/en/economy/cocoa-prices-fall-over-10-in-early-2026-on-supply-optimism/3797859
https://www.ecofinagency.com/news-agriculture/2801-52324-global-sugar-prices-drop-17-in-2025-downturn-expected-to-extend-into-2026
https://www.terrainag.com/insights/all-eyes-on-milk-surplus-in-2026-as-prices-slump/
https://mercadodocacau.com.br/com-precos-em-queda-governo-debate-novas-medidas-de-ajuda-a-produtores-de-cacau/