Desfile de Carnaval faz PROPAGANDA ELEITORAL antecipada de Lula e audiência da Rede Globo DESPENCA

O desfile que exaltou Lula na Sapucaí revelou um retratato de um Brasil onde mídia, Judiciário e política se misturam o tempo todo, e onde as regra parecem mudar conforme o jogador.

O desfile de Carnaval de 2026, na noite de 14 de fevereiro, ocorrido no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, começou como qualquer outro desfile: luzes, bateria, arquibancada cheia, expectativa no ar. Mas bastaram poucos minutos para ficar claro que este desfile seria diferente: não apenas uma disputa entre escolas de samba, competindo pelas melhores notas, sendo julgadas por quesitos como enredo e fantasias, mas também o palco de uma batalha ideológica.

A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida um enredo centrado na trajetória de Lula. A apresentação foi transmitida ao vivo para todo o país pela Globo, que detém os direitos de transmissão do Carnaval carioca.

A propaganda não foi nem um pouco sutil. Desde os primeiros carros alegóricos, alas retratavam Lula sob uma ótica heróica, épica, enfatizando todo o “bem” que ele fez pelo país. A estética remetia a uma epopeia popular, uma biografia heroica.

Em contraponto, o ex-presidente Jair Bolsonaro apareceu trajado de presidiário, associado a uma figura caricatural, inspirada no palhaço Bozo. O figurino exagerado, com trejeitos caricatos, indicava crítica direta. Integrantes da ala desfilavam trajando fantasias com referências a pautas conservadoras, tratadas de forma jocosa, como a "família conserva". Houve também representações críticas ao período pós-impeachment de Dilma Rousseff, chamado de "golpe", e à gestão de Michel Temer, descritas visualmente como fase de instabilidade e retrocesso. Já a primeira dama Janja, convidada para participar do desfile, desistiu de última hora.

A ala da “família conserva” chamou atenção especial. Fantasias representavam famílias enlatadas, literalmente dentro de latas gigantes, sugerindo atraso cultural e mentalidade presa ao passado, bem como elementos podres por dentro. Evangélicos foram retratados com caricaturas exageradas, misturando estética religiosa com gestos de intolerância. A mensagem era satírica, mas para milhões de brasileiros, conservadores e religiosos, soou como desprezo aberto.

Durante a transmissão da rede Globo, os comentaristas tentaram adotar um tom descritivo e postura neutra. Sequer exibiram integralmente o desfile da Acadêmicos de Niterói. Contextualizaram as alas sem mencionar explicitamente as implicações político-eleitorais do enredo. Não houve problematização relevante sobre o fato de o homenageado ser o presidente em exercício em um ambiente pré-eleitoral. A impressão foi de que a Globo escondeu o desfile e o próprio Lula.

A postura da emissora gerou questionamentos. Durante o governo Bolsonaro, houve embates públicos entre Executivo e a Globo. Agora, diante de um desfile claramente favorável ao presidente em exercício, que gerou ampla repercussão negativa com a população, a cobertura optou por praticamente ignorar o teor político do evento. Muitos se perguntaram se a Globo soltou a mão do Lula. Já outros acham que ela só estava protegendo Lula das prováveis repercussões negativas do desfile.

Os números de audiência chamaram atenção. Onze pontos na Grande São Paulo, muito abaixo da média de outros desfiles recentes. Não dá para concluir de forma definitiva que Lula seja impopular só por causa disso, mas os números são difíceis de negar. O país é dividido, e o atual Presidente enfrenta rejeição significativa.

Até aí, seria perfeitamente razoável afirmar: é Carnaval. Não é de hoje que escolas de samba tomam posições políticas, e a própria cultura brasileira nunca foi neutra. A arte não tem obrigação de ser equilibrada. O problema começa quando se analisa mais atentamente o ambiente institucional que cerca essa manifestação.

Nos últimos anos, o Brasil vive uma fase intensa de judicialização política. Bolsonaro foi declarado inelegível por decisões do Tribunal Superior Eleitoral, com base em acusações de abuso de poder e uso indevido de estruturas de comunicação. Discursos e eventos, como as manifestações do 7 de setembro de 2022, foram interpretados como propaganda antecipada ou violação do processo eleitoral. Esse histórico criou um parâmetro público de comparação.

Agora, quando surge um desfile nacionalmente televisionado exaltando um presidente em exercício em ciclo pré-eleitoral, a pergunta inevitável aparece: os critérios serão os mesmos? A sensação é de que há dois pesos e duas medidas. A confiança pública nas instituições, já abalada, cai ainda mais. 

Nos dias seguintes, diversos atores políticos entraram em ação. O Partido Novo ingressou com representação no TCU para pedir a suspensão de um repasse de R$ 1 milhão da Embratur à escola. A área técnica da Corte de Contas manifestou-se favorável ao bloqueio dos recursos. A decisão final, contudo, coube ao relator do caso, Aroldo Cedraz, que negou o pedido e manteve o repasse.

Além disso, a senadora Damares Alves e o deputado federal Kim Kataguiri moveram ações contra o presidente, com base no enredo. As ações foram rejeitadas pela Justiça Federal. O Novo e Kim Kataguiri também ingressaram com pedido para proibir o desfile no TSE. A liminar foi negada. A Corte acompanhou o voto da relatora, Estela Aranha, indicada ao cargo por Lula.

O fato da relatora ter sido indicada pelo próprio presidente homenageado pesa na percepção pública. A política é feita tanto de fatos quanto de símbolos. E o símbolo de uma decisão favorável, vinda de uma indicada pelo maior beneficiado da campanha, traz um significado gritante ao debate público.

No meio da controvérsia, o deputado Nikolas Ferreira anunciou que estudaria medidas jurídicas contra Lula, alegando promoção indevida e possível uso indevido da máquina pública. Nikolas sustentou que, se atos muito menos explícitos foram tratados como propaganda antecipada no passado, um desfile de grandes proporções exaltando o presidente deveria, no mínimo, ser objeto de análise rigorosa. Sua crítica não foi contra o Carnaval em si, mas à coerência institucional.

O governador Romeu Zema reagiu a outro desfile que satirizou a chamada “família conserva” e representou evangélicos como figuras caricaturais e atrasadas. A crítica era clara: boa parte do Brasil, especialmente interiorano e religioso, foi retratada como presa em vidros de “conserva”, numa metáfora que soou ofensiva para milhões. Zema anunciou que poderia acionar judicialmente os responsáveis, argumentando que há limites entre crítica e discriminação. Curiosamente, quando segmentos religiosos ou conservadores são alvos de sátira, raramente se ouve a palavra “intolerância” com a mesma intensidade que se ouviria caso o alvo fosse outro grupo identitário.

Aqui emerge uma assimetria cultural perceptível. Criticar é legítimo. Contudo, quando críticas atingem minorias progressistas, fala-se imediatamente em discurso de ódio. Já ridicularizar milhões de pessoas religiosas como atrasadas, enlatadas ou moralmente podres, aparentemente, é permitido. Oras, ou a regra vale para todos, ou vira instrumento retórico seletivo.

Agora, sejamos honestos em nossa análise: propaganda não é só pedir voto diretamente. Passa por promoção social, construção de imagem e ataque a opositores. Um desfile televisionado, apresentando o presidente como herói injustiçado e redentor, tem impacto emocional e simbólico. Não é possível considerar isso como algo inconsequente ou politicamente neutro.

O Judiciário brasileiro assumiu protagonismo crescente nos últimos anos. Decisões com impacto eleitoral direto tornaram-se frequentes. Quanto maior a margem interpretativa, maior a força do ativismo judicial. Por outro lado, quando mais a sociedade começa a perceber que decisões variam conforme o espectro político e personagem envolvido, mais a suposta autoridade moral das cortes se fragiliza.

Agora, por um momento, imagine um Brasil onde escolas de samba não dependam de verbas públicas ou incentivos estatais. Onde emissoras não operem sob concessão política renovável pelo estado. Onde a legislação seja simples, objetiva, limitada a impedir coerção e fraude clara. Onde a Justiça tenha uma interpretação restrita e previsível. Este poderia ser um exemplo de sociedade libertária.

Nesse ambiente, um desfile homenageando qualquer pessoa seria tratado como escolha cultural privada. Se o público gostasse, a audiência subiria. Se rejeitasse, cairia. Concorrentes poderiam oferecer alternativas. A consequência seria econômica e reputacional, não judicial. Não haveria corrida aos tribunais, nem expectativa de intervenção institucional. Um desfile pró-Lula ou pró-Bolsonaro seria simplesmente escolha de mercado. Gostou? Apoie. Não gostou? Não consuma.

A sociedade libertária não elimina conflito ideológico. As pessoas certamente continuariam discordando, por diversos motivos. Mas ela elimina a possibilidade de uso do aparato estatal para controlar o debate. O Carnaval deixa de ser campo de guerra eleitoral e voltaria a ser principalmente expressão cultural.

Outro ponto crucial: quando o estado concentra bilhões em orçamento, cada grupo tenta influenciar quem controla a máquina. Isso transforma qualquer palco — inclusive o Carnaval — em arena eleitoral permanente. Reduzir o tamanho e o alcance do estado diminui o prêmio da disputa.

Do ponto de vista libertário, portanto, a solução não é só brigar para trocar quem está no poder. É reduzir o poder disponível. Menos dependência de concessões, subsídios, regulação subjetiva e aplicada com "dois pesos, duas medidas". Ao invés disso, mais responsabilidade individual e contratual. Quanto menos o estado estiver entranhado na cultura e na mídia, menos cada evento cultural será visto como extensão do governo.

No fim das contas, o problema não é a escola homenagear político, e sim o fato de que quase tudo no Brasil passa, direta ou indiretamente, pelo estado. Enquanto o poder político concentrar tanto recurso e influência, casos assim continuarão acontecendo. E tudo financiado com "dinheiro público" - ou seja, nosso dinheiro.

Se queremos ter o poder de não financiar eventos que vão contra nossos valores, precisamos retirar poder do estado, e não apenas trocar os atores políticos.

No fim, a fantasia pode ser alegórica, mas o jogo por trás é real e impiedoso. E quanto maior o prêmio pelo controle do poder estatal, mais feroz será a disputa para escrever o enredo da vez.

Referências:

https://www.poder360.com.br/poder-governo/saiba-como-foi-o-desfile-pro-lula-da-academicos-de-niteroi/

https://oglobo.globo.com/rio/carnaval/guia/veja-a-letra-do-samba-da-academicos-de-niteroi-para-o-carnaval-2026-1.ghtml

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/audiencia-da-globo-despenca-apos-esconder-desfile-que-homenageou-lula-no-carnaval/

https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/02/16/nikolas-diz-que-vai-propor-acao-de-improbidade-contra-lula-apos-desfile.ghtml

https://www.brasil247.com/blog/o-carnaval-e-politico

https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2026/02/16/medo-vence-a-euforia-e-alegoria-de-janja-dura-pouco-na-sapucai.htm

https://www.estadao.com.br/politica/fabiano-lana/o-recuo-do-janja-no-desfile-foi-um-bom-sinal-em-meio-ao-caos/

https://www.bahianoticias.com.br/noticia/313887-zema-diz-que-vai-processar-academicos-de-niteroi-por-retratar-evangelicos-como-conservadores-em-conserva