A Crise Venezuelana pode Quebrar o Bolsa Família

O povo brasileiro não é só roubado para sustentar políticos, funcionários públicos e outros brasileiros. Somos roubados para sustentar estrangeiros que vivem e aqui, e o problema é muito maior do que você pensa!

O mapa da pobreza no Brasil mudou de contornos nos últimos anos. O número de venezuelanos atendidos pelo Bolsa Família disparou, sendo uma estatística à qual poucos parecem dar atenção. De pouco mais de mil beneficiários em 2017, passou para mais de duzentos mil em 2025 — um aumento superior a cento e noventa vezes, impulsionado por uma crise política e humanitária que empurrou multidões para fora da Venezuela desde 2014.
Hoje, quase metade desses beneficiários vive na região Norte, onde fronteiras se tornaram passagens de desespero e esperança. Roraima, um estado de orçamento modesto, transformou-se no epicentro dessa migração, com quase sessenta mil venezuelanos registrados no sistema. Paraná e Amazonas aparecem logo atrás como destinos dessa travessia que, para muitos, representa a única chance de sobrevivência diante de um país que persegue seus cidadãos e os condena à fome.
Em 2021, eram cerca de cinquenta e quatro mil venezuelanos amparados pelo programa. Dois anos depois, esse contingente praticamente dobrou, atingindo quase cento e oitenta e cinco mil pessoas. A Constituição de 1988 permite esse acesso ao garantir que estrangeiros residentes tenham direito aos mesmos benefícios sociais que os brasileiros. O sistema é formalmente cego à nacionalidade: quem entra no Cadastro Único e cumpre os critérios de renda pode receber o auxílio.
(Sugestão de Pausa)
Com o colapso institucional da Venezuela e a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, o cenário político do país vizinho tornou-se um campo minado de incertezas. A repressão aumentou, os checkpoints se multiplicaram e a sensação de vigilância constante se intensificou nas ruas. Nessas circunstâncias, o medo se torna um motor mais poderoso do que qualquer incentivo econômico. Uma nova onda migratória não é apenas provável, mas quase inevitável. Se dezenas de milhares atravessaram a fronteira antes, o que esperar agora, quando tudo parece caminhar para o caos? Novas ondas de protestos e repressão são mais do que plausíveis.
Cada crise lá se traduz em mais imigrantes aqui, mais famílias aptas a receber benefícios, mais pressão sobre o orçamento público e, inevitavelmente, mais debates inflamados sobre quem paga a conta. Toda convulsão política venezuelana acaba, de uma forma ou de outra, refletida nas filas dos abrigos brasileiros e nos cadastros do Bolsa Família.
O Bolsa Família nasceu no governo de Fernando Henrique Cardoso, sob o nome de Bolsa Escola. A proposta inicial era, supostamente, compensar falhas temporárias de renda enquanto o mercado de trabalho se ajustava às mudanças econômicas. Com Lula, o programa foi ampliado, ganhou centralidade política e se tornou uma marca eleitoral. Desde então, o Bolsa Família passou a ser identificado como um símbolo do PT e de sua estratégia populista para formar seu curral eleitoral.
(Sugestão de Pausa)
Mais de vinte anos se passaram desde então. O programa ajudou a reduzir a fome em alguma medida, mas não rompeu o ciclo da pobreza crônica que atinge milhões de brasileiros. A prometida mobilidade social se mostrou frágil e temporária: famílias sobem um degrau, mas o piso se move junto, ainda mais com uma inflação anual sempre crescente que destrói o poder de compra da moeda. O problema, na verdade, é estrutural, e o assistencialismo, por definição, raramente constrói bases duráveis de autonomia. Mas isso não é novidade alguma: as pessoas precisam mesmo é de oportunidade, e só o mercado capitalista consegue trazer possibilidades de melhorias reais de vida, apesar de todos os desafios.
Sob a ótica libertária, o Bolsa Família representa um arranjo ambíguo entre um discurso supostamente altruísta e uma prática de coerção contra pagadores de impostos. Há o ideal de ajudar quem mais precisa, mas o mecanismo é sustentado pela extração compulsória de renda de quem trabalha e produz. Trata-se de caridade financiada com dinheiro alheio, legitimada por lei e, como toda política de redistribuição forçada, produtora de incentivos distorcidos e de imoralidade.
Um programa que tira de uns para dar a outros sob ameaça fiscal não é benevolência, é engenharia social. Ao combinar uma população de baixa renda e escolaridade com um auxílio amplo e permanente, o resultado é a formação de um curral eleitoral. O eleitor pobre passa a ser tratado como cliente cativo, transformando o assistencialismo em um sistema de compra de votos institucionalizada, daí o motivo de pessoas pobres continuarem a votar nos mesmos políticos de sempre, e nada muda.
(Sugestão de Pausa)
Isso se agrava quando observamos quem financia o sistema. Estados com economias mais robustas, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sustentam políticas cujo retorno eleitoral se concentra em outras regiões. O resultado é um conjunto de incentivos negativos: permanecer pobre torna-se uma estratégia racional, já que aumentar a renda significa perder o benefício. O Estado cria o problema e, em seguida, se apresenta como a solução indispensável.
Experiências internacionais reforçam esse diagnóstico. Na Finlândia, um experimento de renda básica universal pagou 560 euros mensais a dois mil desempregados escolhidos aleatoriamente. A ideia era eliminar o medo de perder o benefício ao conseguir trabalho, reduzir a burocracia e confiar no uso racional da liberdade financeira. O resultado foi modesto: nenhuma diferença relevante em emprego ou renda em relação ao grupo de controle, nenhuma explosão de empreendedorismo. Houve apenas um leve aumento no bem-estar subjetivo, que sequer pôde ser claramente atribuído ao programa. O incentivo positivo pode soar moralmente atraente, mas não substitui o custo psicológico e econômico do trabalho real. Se nem a sociedade mais educada e organizada da Europa colheu resultados práticos, é ingênuo supor que o desfecho seria diferente em um país marcado pela ineficiência estatal.
O Bolsa Família mostrou-se tão incapaz de gerar riqueza quanto o experimento finlandês, além de ser caro e politicamente conveniente para uma elite parasitária. Para agravar esse quadro, a crise venezuelana ameaça desencadear uma nova onda migratória e, consequentemente, mais pedidos de auxílio. A captura de Maduro colocou o regime chavista em modo de sobrevivência: vigilância ampliada, repressão intensificada e perseguição a qualquer vestígio de oposição. Regimes acuados tendem à paranoia, e a história mostra que esse estado raramente termina de forma pacífica.
(Sugestão de Pausa)


Atualmente, o país é governado por Delcy Rodríguez, vice de Maduro. Apesar da aparência de estabilidade, o poder em regimes autoritários dificilmente é transferido sem conflito. Figuras centrais como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López podem cooperar momentaneamente diante de uma ameaça externa, mas, superado esse ponto, a disputa interna tende a emergir com força. Diante da incerteza, milhares de venezuelanos não esperarão o pior acontecer: emigrarão. E o Brasil, mais uma vez, se tornará o principal destino dessa diáspora contínua.
A simples existência do Bolsa Família torna o país ainda mais atrativo, mesmo com barreiras linguísticas. Afinal, 600 ou 800 reais mensais em Real representam um privilégio quando comparados à ruína do bolívar. À medida que o número de beneficiários cresce, o programa exige mais recursos, mas o orçamento público não acompanha esse ritmo. Em um cenário de estagnação econômica, alta carga tributária e dívida crescente, o risco de colapso fiscal se intensifica.
Quanto mais pessoas dependem do Estado, mais indispensável ele se torna, criando a justificativa perfeita para o populismo. Desmontar esse sistema passa a ser politicamente custoso, mesmo quando ele falha. Essa é a chamada “armadilha da dependência”: o governo cria a necessidade e depois se apresenta como o único capaz de atendê-la.
(Sugestão de Pausa)


Programas de transferência de renda têm efeito paliativo, mas raramente emancipador. O problema surge quando o paliativo é vendido como solução definitiva. O país então gira no mesmo eixo vicioso: distribuir, depender, redistribuir e depender novamente - e no fim, o povo continua cada vez mais miserável.
O caso venezuelano, somado à falência desse modelo distributivo, estará no centro do debate eleitoral. Não por altruísmo, mas porque, sem o Bolsa Família, a esquerda perderia sua principal base eleitoral. Isso ajuda a explicar por que regiões conservadoras continuam votando em projetos políticos desconectados de seus valores culturais. O assistencialismo funciona como o elo entre essa contradição. Sem a redistribuição irrestrita, a esquerda perde sua principal ferramenta de mobilização. Para ela, a questão não é caridade, mas sobrevivência eleitoral. A tendência será defender o modelo sem ajustes, rotulando opositores como inimigos do povo — e, agora, como xenofóbicos.
A direita, por sua vez, tende a adotar um discurso mais responsável no campo fiscal, defendendo reformas no Bolsa Família e em outros programas sociais. Não será surpresa ouvir, na propaganda eleitoral, a frase de Ronald Reagan: “Não devemos julgar os programas sociais por quantas pessoas estão neles, mas por quantas estão saindo.” Ainda assim, convém cautela: lucidez econômica não equivale à virtude moral absoluta.
(Sugestão de Pausa)
No fim, o problema não é ajudar quem precisa, mas transformar essa ajuda em política coercitiva, sustentada pela expropriação sistemática da população produtiva. Quando a caridade se torna obrigatória, deixa de ser virtude e passa a ser vício fiscal. E vícios, como se sabe, tendem apenas a crescer.


Referências:

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/01/08/numero-de-venezuelanos-atendidos-pelo-bolsa-familia-ultrapassa-205-mil-em-2025.ghtml

https://www.helsinki.fi/en/news/fair-society/basic-income-experiment-finland-yields-surprising-results-0

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolsa_Fam%C3%ADlia